João Pereira, segundo da série “Corrida da Sogipa: Eu vou!”, diz: “Correr é sensacional”

João Gratulino Brito Pereira, vestido de uniforme verde oliva em plena época da ditadura, alinhou com os outros recrutas e, ao escutar o tiro de largada, saiu em desabalada carreira quartel afora. Aos 18 anos, ele fazia a primeira de uma série de centenas de corridas, uma das únicas sem a camisa da Sogipa – que enverga com orgulho desde os 21 anos.

“A Sogipa é a minha segunda casa. Sempre defendi esse clube nas pistas e vou continuar assim enquanto tiver forças para correr”. A próxima será a Corrida da Sogipa, marcada para 17 de agosto. As inscrições começam nesta segunda-feira (dia 16 de junho).
Mas voltando ao quartel e a prova inaugural da carreira de João: “Acabei aquela corrida em primeiro lugar, surpreendendo os superiores. Eles me perguntavam: ‘Onde tu treinava? Com quem tu treinava?’… E eu respondia: ‘Com ninguém. Nunca corri na vida. Ficaram espantados’.
João acabou vencendo a prova no quartel e foi convidado não só há permanecer o ano obrigatório no Serviço Militar, mas outros dois. Serviu no 6º Batalhão de Engenharia e Combate, em São Gabriel, até 1980, quando decidiu virar atleta de fato.
Procurou a Sogipa, fez um teste e passou.
“Nunca foi fácil ser atleta da Sogipa. Cheguei aqui e me ofereci para fazer o teste. Disseram que eu precisava correr os 3 mil metros em pelo menos 9min30seg. Consegui. Fiz 9min26 e fiquei na Sogipa. Estou até hoje aqui”.
Já nas primeiras semanas no clube, o corredor ganhou outras alcunhas. Alguns, por motivos mais que óbvios, o chamavam de “João Ligeiro”. Outros, de Rapozão – assim mesmo, com “Z”. A carreira decolou.
Dono de pernas ágeis e pulmão avantajado, ele fez história nas pistas do Rio Grande do Sul e encarreirou uma série de títulos nos 5 e 10 mil metros, suas duas provas prediletas. “Cheguei a fazer 14min28 nos 5 mil e 29min52 nos 10 mil. São tempos bem bons”, relembra, com orgulho. Também competia nos 3 mil metros com obstáculos, prova pela qual chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira que disputou um Mundial em Varsóvia, em 1987.
Naquela época, a Polônia estava do outro lado da Cortina de Ferro. “Chegamos lá e no aeroporto tinha uma tropa de militares com arma na mão e um monte de cachorros. Uma colega de Santa Catarina tentou tirar uma foto daquela recepção e quase teve a máquina arrancada por um militar… Foi complicado”, lembra.
O sogipano também correu provas mais longas. Em 1989, conquistou o primeiro lugar na Maratona de Porto Alegre, percorrendo o trajeto em 2h19min46. “Naquele tempo, a prova era mais difícil. Tinha muito mais lomba. Hoje, está bem mais fácil, mais plana”, desdenha João, com um sorriso sorrateiro, indisfarçável e, principalmente, provocador no canto do rosto.
O grande orgulho de João, porém, não são as centenas de troféus e medalhas que guarda em casa. Nem os títulos e as lembranças das corridas em várias partes do Brasil ou do Mundo. Para o corredor, atleta laureado da Sogipa desde 1986, seu grande feito foi ter incentivado outros a correrem: “Minha filha corre, minha esposa corre, meus sobrinhos correm…. Acho que um monte de gente acabou correndo por causa do meu exemplo. É isso que me deixa mais feliz”, suspira.
Mas, afinal, o que é correr para João? “É tudo, é sensacional. Se eu fico dois ou três dias sem treinar, chego a sonhar que estou correndo, competindo”.
E é bom que se preparem. João Ligeiro, o Rapozão, o pai da Luana, o esposo da Márcia, promete voltar às pistas na Corrida da Sogipa, apesar de uma lesão no quadril que tem atrapalhado seus treinos: “Eu vou correr, nem que seja os 5 mil. Eu não ficaria de fora da festa que é a nossa corrida”.
Os fãs, os amigos e também os familiares agradecem o apoio, o incentivo e, acima de tudo, o exemplo.